"Amem sem cor, raça ou gênero."

Esqueça os gays efeminados e sofridos, as lésbicas caminhoneiras e as travestis espancadas. Eles estarão lá, mas agora têm companhia. Antigamente, tais clichês transbordavam em produtos audiovisuais. A 4ª Mostra Possíveis Sexualidades, que começa amanhã e vai até domingo em Salvador, entretanto, apresenta outras facetas da sigla LGBT, que reúne lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.


   Igor Cotrim interpreta um travesti brasileiro Elvis & Madona, que será exibido na mostra

A programação reúne 35 curtas e longa-metragens. É a diversidade dentro da diversidade. Os exemplos são muitos. O curta Bailão mostra a realidade de gays da terceira idade em São Paulo, cujo ponto de encontro é uma casa de dança de salão. De Portugal vem o documentário Boys Just Wanna Have Fun, sobre o Dark Horses, primeira equipe gay portuguesa de rugby, esporte associado a homens viris e heterossexuais.

Além das sessões, o festival promove encontros com diretores e debates. Para a coordenadora da mostra, Fernanda Bezerra, 26 anos, o momento atual no Brasil demanda a discussão de temas como homofobia e direitos da comunidade LGBT. No dia 5, o Supremo Tribunal Federal reconheceu, por unanimidade, a união homoafetiva – ou seja, estendeu a casais do mesmo sexo os direitos que os heterossexuais já possuíam.

Elvis não morreu


As exibições serão gratuitas na Caixa Cultural Salvador, na Rua Carlos Gomes; e no Instituto Cervantes, na Ladeira da Barra. Nos cinemas da Ufba, no Vale do Canela; e do Museu, na Vitória, a inteira custa R$ 10 e a meia, R$ 5. Na abertura, amanhã, às 19h30, na Caixa, serão exibidos cinco curtas nacionais: A Mais Forte, Amanda e Monick, As Fugitivas, O Bolo e Um Par a Outro.

Dentro da programação, destaque para filmes premiados. Elvis & Madona, ainda inédito no circuito comercial, ganhou o prêmio de melhor roteiro na edição 2010 do Festival do Rio.

No filme de Marcelo Laffitte, a atriz Simone Spoladore vive Elvis, uma lésbica que é entregadora de pizza e deseja ser fotógrafa. Um dia, ela conhece Madona, travesti cabeleireiro que sonha com os palcos. A amizade acaba se transformando em uma improvável história de amor.

Laffitte e o ator Igor Cotrim, que vive o travesti Madona, vêm a Salvador para a exibição. O diretor participa de bate-papo no sábado, depois da exibição do filme, às 21h, no Cinema do Museu: “O filme trata de amor e de sonhos, coisas que são inerentes a todo ser humano independente do sexo, raça, religião ou posição política”, afirma.


Infância

Premiado nos festivais de Havana, Miami e Cartagena e elogiado pelos jornais argentinos Clarín e La Nación, O Último Verão de La Boyita é uma jornada de descoberta da sexualidade. A trama é vista pelos olhos de Jorgelina, uma menina na transição para a adolescência que reencontra um amigo de infância durante as férias.

Apesar de exibido na mostra Possíveis Sexualidades, a diretora de O Último Verão de La Boyita, Julia Solomonoff, 42, rejeita rótulos. “Acredito que a identidade é uma construção complexa. Gosto de circular em diferentes espaços e promover diálogos”, afirma, citando a participação do longa-metragem em festivais de cinema infantil.


Premiação inédita

O sexo entre duas mulheres é o mote de Um Quarto em Roma. No filme, Alba mora na Espanha com os dois filhos e Natasha está prestes a se casar na Rússia. Em comum, 12 horas em um quarto de hotel na capital italiana antes da volta à realidade cotidiana. A produção é dirigida pelo espanhol Julio Medem, premiado no Festival de Cannes 1993 por La Ardilla Roja.
Pela primeira vez, a mostra dará um prêmio ao melhor curta nacional, em escolha do público. Na competição está o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, que conta a história de um adolescente cego que se apaixona por um colega de classe.

“A homossexualidade é complicada em qualquer idade. Na adolescência, é mais ainda. É um tema que não se fala muito”, acredita o diretor, premiado no Festival de Berlim 2008 pelo curta Café Com Leite.

Idealizador e organizador do maior festival de filmes LGBT do país, o Mix Brasil, André Fischer, 44, comemora o crescimento de mostras nacionais do gênero. O Mix já teve edições em 40 cidades, inclusive Salvador, no início da década passada.

Sopa de letrinhas

Segundo Fischer, os curtas têm pouco apelo comercial e acabam restrito a festivais: “É praticamente a única vitrine de exposição do formato”. Ele acredita que filmes com personagens LGBT ajudam as pessoas que têm dificuldade de aceitação da própria sexualidade. “É a chance de se ver representado”, diz.

A opinião é compartilhada pelo professor da Ufba Leandro Colling, 39, presidente da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura.
“O grande barato desses festivais é dar um panorama mais amplo da diversidade sexual. São diversas manifestações, uma verdadeira sopa de letrinhas”, compara. A representação de tantas letras, hoje em dia, é muito mais ampla, acredita o professor. Antes, os não-heterossexuais eram caricaturas ou apresentados na trama de forma sutil demais, praticamente escondidos.

Outro olhar

Colling faz uma observação, compartilhada com outros entrevistados: o público heterossexual ainda tem certa resistência a ver filmes com temática LGBT: “A heterossexualidade é tida como algo que não precisa ser pensado. Eles (os heterossexuais) olham os filmes gays como algo que não os diz respeito”.

Diferenças na composição do público à parte, um consenso entre diretores e profissionais envolvidos com filmes LGBT é que a divulgação de tais obras ajuda a diminuir o preconceito. “Após uma sessão de Elvis & Madona, um senhor me disse: ‘Sou sargento aposentado da Aeronáutica e nunca, em toda a minha vida, imaginei que torceria por um viado. Você mudou o meu pensamento”, testemunha Marcelo Laffitte. Ponto para os filmes cheios de letrinhas.

ARCO-ÍRIS NA TELONA
Mostra Possíveis Sexualidades
Local: Caixa Cultural Salvador, Instituto Cervantes, Cinema da Ufba e Cinema do Museu
Data: De amanhã a domingo

Eu não quero voltar sozinho (trailer):


O último verão de la boyita (trailer):


O primeiro que disse (trailer):

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