"Amem sem cor, raça ou gênero."

O ponto de encontro é o Campo Grande. O dia? Sexta-feira. Passatempo? Ficar com “pessoas”, independentemente do gênero. Em comum: um grupo cada vez mais jovem

“Meu pai, eu sou uma pessoa que curte a pessoa do mesmo sexo. Se você respeitar minha orientação sexual já tá de bom tamanho, porque eu sou seu filho e nunca vou deixar de ser. Se você não quiser aceitar, ‘se mate’! Eu sou feliz assim, vou continuar assim, meus amigos me aceitam do jeito que eu sou e pra mim é isso que importa”.

As palavras escolhidas já estão na ponta da língua. “Vou falar! Esta semana agora”. Rodeado dos tais amigos que o aceitam, Dinei, 16, ensaia a conversa que pretende ter com o pai. Ao fim do discurso, todos o olhavam com cumplicidade - aqueles que, há quase um ano, o fizeram perceber que, além de não ser o único, não estava sozinho.
Dinei gosta de meninos. Sandra, 17, gosta de meninas. Larissa, 15, via com maus olhos quem gosta do mesmo sexo – até aceitar que gostava também. Nicole, 16, diz preferir os meninos, mas frequentemente fica com meninas. Júlio gosta de meninas e facilita os encontros de Vinicius, 15, com seus ficantes. Eles fazem parte de uma geração que, diferentemente das anteriores, lida com maior facilidade com a diversidade sexual.

O grupo de quase 20 amigos com quem Dinei anda ocupa apenas uns dois bancos da Praça do Campo Grande, que toda sexta à tarde fica tomada de adolescentes, muitos ainda com a farda escolar. Em meio a violões e skates, jeans e tênis All Star, o passatempo preferido, além de bater papo, é “ficar”. Ficar com quem? “Com pessoas”, dizem eles, que não estão reparando se o eleito é do sexo oposto ou não. Até aqueles que reparam, interagem com os outros da mesma forma. Conversando com seus amigos, Nicole se mostrou distante do tema. Porém, depois de um bom tempo de conversa, alguns amigos se afastaram e ela se sentiu à vontade para confessar que, no início deste ano, também passou a ficar com meninas.



‘Descobri que era normal’
Desde os 12, Nicole começou a sentir algo por elas. “Mas só vim botar em prática agora”, ri, atribuindo essa coragem à mudança de um colégio estadual de Cajazeiras para outro, proximo do Campo Grande. “Eu comentava com as minhas amigas que achava estranho as meninas que sentavam no colo das outras e começavam a se beijar. Não me imaginava naquela cena”. A primeira vez foi com a melhor amiga, lá mesmo na praça. Mesmo estranhando, o clima avançou. “Eu passei a gostar dela... aí acabamos namorando três meses”.

Depois desse namorico, ela não parou. “Fiquei com a primeira, a segunda, a terceira...”. Hoje, fica com meninos, que por sua vez, a veem ficando com meninas e não se importam. Mas ela não se define como gay ou bissexual por isso. “Não tenho opinião formada”, afirma.
Sentido proibido?

Neste momento, se instala o conflito, que não precisa ultrapassar a porta de casa para se manifestar. É com um sorriso irônico que Larissa, 15, revela: “Eu era homofóbica”. Em tempos politicamente corretos, a frase assombra também por, algum tempo depois, vir acompanhada da revelação da homossexualidade. Narciso acha feio o que lhe é espelho? “Eu não podia ser gay porque Deus criou o homem para a mulher e a mulher para o homem. Saí da igreja a partir do momento em que começaram a falar: ‘Isso tá errado, você vai pro inferno’. Eu me julgava mal por gostar e não poder assumir. Então, eu tinha que mudar, porque todo mundo era hetero. Até que eu conheci os gays...”. Os amigos riem e ela completa: “E descobri que era normal ser gay”.

Para Vinicius, 15, a formação religiosa dos pais acaba influenciando. “Minha mãe me obriga ir para a igreja e o pastor diz: ‘Ora para tirar o espírito do homossexualismo do seu filho’, para tirar uma coisa que eu sei que é instinto”, conta com convicção Vinicius, que aos 12 anos percebeu que sentia atração por meninos. Para ele - e os amigos concordam - o que mudou não foi o número de adolescentes que se dizem homo ou bissexuais, e sim o amadurecimento da sociedade, do ensino e, sobretudo, a internet, que permite aos jovens conhecer seus pares e sentir confiança de vivenciar livremente sua sexualidade.

Se Vinicius não vai mais à igreja, as irmãs “de sangue e de fé”, Iracema, 60, e Mari, 54, não perdem a chance de ir até o Campo Grande às sextas para evangelizar. Adeptas da Igreja Batista, consideram suas “ovelhas” - desgarradas - adolescentes carentes de afeto e atenção dos pais. Depois de muita pregação, Mari diz perceber que “as crianças têm perdido a inocência muito cedo de vido a todo um contexto familiar, social e de informação que muda o caráter delas”. Em comparação, reflete: “A diferença dessa geração para a nossa é gritante. Não se ouvia falar de homossexualismo, lesbianismo, drogas... E sabe o que é isso? A família está perdendo os valores”.

Falar para os pais a forma como conduzem suas vidas é tido muitas vezes como problema. Mas nem sempre o inverso é verdadeiro. Jamais passava pela cabeça de Sandra, 17, o ciúme que sentiria do namoro da melhor amiga com a prima, há dois anos. Hoje, é resolvida consigo mesma e com a família. “Contei para a minha mãe e para a minha irmã recentemente, e elas me aceitam. Nós temos uma boa relação, graças a Deus. Tenho muitos amigos que estão em outro extremo, de mães quererem até se matar. Eu não tenho esse tipo de problema, mas isso não quer dizer que é mais fácil, que a gente não sofra o que não deveríamos sofrer.”

Placa de advertência
Se as quatro paredes de casa nem sempre são confortáveis, as da escola guardam outros desafios. Os desencontros que sempre acontecem entre professores e alunos aumentam em um território tão delicado. Estudante de uma escola particular, Luisa, 15, foi repreendida por trocar carinhos com uma amiga muito próxima. Nada que indicasse algo a mais que uma amizade, mas que já gerava comentários entre os colegas. “Ela tinha umas atitudes meio masculinas”, conta Diego, também seu grande amigo, indicando um possível motivo para os acontecimentos. Para ele, o corte de cabelo ‘joãozinho’ foi o estopim. “A psicóloga chamou para conversar e disse para elas não andarem muito juntas, para que não falassem coisas que elas não eram”. Como toda ação tem uma reação, Diego e mais um grupo de amigos foram reclamar. “Era só amizade, e, mesmo que não fosse, isso é homofobia! Ela é psicóloga, deveria estar dando apoio para Luisa”, observa. O caso ainda foi comunicado à vice-direção. Depois do ocorrido, Luisa decidiu ir, no próximo ano, para um colégio que considera mais “cabeça aberta”.

Sinal verde
Apesar de todo o preconceito, ser diferente pode ser motivo de orgulho para os adolescentes, enquanto para os pais significa “dor de cabeça”. Foi como uma provocação que Otto Guerra, 39, interpretou a atitude tomada por sua filha, Sophia, 15, há dois anos. Certo dia, recebeu uma ligação avisando que ela estava passando mal. Já em casa descobriu a causa: nove Smirnoff Ice, que trouxeram à tona um questionamento da garota. Apesar de nunca ter namorado ninguém, não sabia se gostava de meninas, como algumas de suas amigas. Ao saber disso, o pai advertiu: “Essa é uma carga muito pesada. Se for uma coisa do seu ser, beleza, tem meu apoio. Mas se for coisa de modinha, ‘ahh, porque tá todo mundo fazendo, pai’, você vai se ver comigo”. Em sua vida de músico, tocando em festas pela cidade, Otto afirma perceber que, apesar de experimentações serem naturais, para muitos, há algo de “descolado” em mostrar-se aberto.

Muitos dos ídolos dessa moçada estão antenados com essa realidade. Na música I Kissed a Girl, Katy Perry, com o ar maroto de pin-up, canta os lábios com sabor de cereja de uma garota e completa: “Eu beijei uma garota/só para experimentar/não significa que me apaixonei esta noite”. Já Lady Gaga, que é famosa também pela aparência excêntrica, prega a diversidade, incluindo a sexual, em Born this Way: “Não importa se você é gay, hétero ou bi/Lésbica ou transexual/Estou no caminho certo/Nasci para sobreviver”.

Será que quando essas músicas deixarem de gerar polêmica o futuro da sexualidade - amar alguém sem olhar a quem - terá chegado?

Essa geração é pós-identitária
Para Leandro Colling, coordenador do Grupo de Pesquisa Cultura e Sexualidade (CUS) e presidente da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, a marca dessa turma é mais que a tolerância: “É visível que os adolescentes de hoje, comparados com a geração anterior, estão experimentando e expressando sua sexualidade, seja ela hetero ou não, de maneira mais rápida e mais tranquila”.

Essa flexibilidade de se apaixonar por um menino ou por uma menina, e nem por isso se rotular como gay, lésbica, bi ou heterossexual, surpreende. “Para mim, essa geração é pós-identitária. Toda tentativa nossa anterior é de colocá-los nessas caixinhas. Essa geração quer transitar; hoje podem estar em uma relação tida como homossexual, e amanhã não”, explica Colling.

O psicólogo Alessandro Marimpietri – para quem a adolescência é um modo de viver e não uma fase da vida – acredita que as atuais mudanças percebidas na sexualidade dos adolescentes caminham lado a lado com as mudanças do mundo. “O mundo está assim: as relações estão rápidas, furtivas, céleres; a sexualidade, por um lado, é muito mais livre, por outro, é mais tediosa”, analisa.

Pais e filhos sofrem muito com as disparidades de geração, o que se tenta resolver com o diálogo aberto sobre todos os assuntos. Marimpietri, porém, chama a atenção para a ditadura do diálogo. “Eu acho que tem coisas que devem ser conversadas e outras que não. A ideia do diálogo tenta unificar pais e filhos, como se esses operassem socialmente no mesmo lugar”. Não se trata de não conversar e sim de não ver no diálogo a solução de todos os problemas, que podem nem mesmo existir.

Há quem veja as experimentações como algo negativo. “Qual o problema disso? Isso não quer dizer que para todos seja uma modinha. O que se desenha mais, mas isso só o futuro vai mostrar, é não precisar mais de ter a identificação de homo, hetero e bi. O sujeito pode ter simplesmente a sua sexualidade”.

* Os nomes dos personagens são fictícios

Fonte: Correio (Alexandro Mota e Luana Ribeiro)

3 comentários:

  1. bem legal isso ^^ gostei isso ai.

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  2. Tenho 19 anos e me assumi a 3 meses, minha mãe aceitou de boa, meu Padrasto contei faz menos de um mês, porque agora estou namorando e não queria que fosse escondido, quando eu tinha 13,14 anos me achava diferente, mas para não ser diferente comecei a ficar com garotos, tive namorados, ate que quando completei 16 anos me apaixonei por minha melhor amiga, foi dificil pq ela namorava um garoto, e fora que eu morava com meus avós e em uma cidade pequena do interior de PE, a gente era muito grudadas e nossas brincadeiras eram diferentes, a gente dava selinho as vezes, e tambem uma chamava a outra de namorida, mas sempre nada alem disso, só que quando percebi que pra mim era alem, entrei em desespero pq eu era da igreja e pra mim era errado, quando saiu os rumores sobre minha sexualidade eu neguei e logo comecei a ficar com um monte de garotos, cheguei a tranzar, mas nunca senti nada, vivia em uma vidad e fingimento, ano passado quando vim morar na casa da minha irmã aqui em SP, me descobri comecei a ficar com garotas, mas voltei pra igreja e voltei a ficar com garotos, " Eu não me aceitava", eu achava que era assim pq não tinha encontrado o cara certo, mas como sempre não sentia NADA a não seu raiva de mim, decidi sair da igreja e me aceitar como eu sou, mas foi quando fui morar com minha mãe que decidi abrir o jogo, e quando ela disse que isso não mudava nada, eu senti um força que eu fiquei nem ai para os outros,minha irmã ainda ta tentando se adaptar, e eu to namorando e feliz, mas o resto da familia fica falando que é uma faze e vai passar, minha irmã acha que fui influenciada, e outras pessoas acham que é moda, isso tudo pq eu ja fiquei com homens, mas hoje eu sei que eu sou assim, que eu não escolhi ser assim e que agora to em paz, apesar de as vezes me bater um medo de ir pro INFERNO hehe, mas eu preciso ser feliz!
    As pessoas tem mania de falar em opção sexual, mas se isso fosse uma opção eu não escolheria se gay, afinal não é nada bom, vc passar de mãos dadas com a sua namorada e ouvir coisas horriveis, correndo riscos, e por muitas vezes negar a vontade de dar um beijo em quem amamos só pq tem crianças e idosos por perto ( PORQUE EU SEI QUE TEMOS QUE RESPEITAR ), mas doi toda vez que estamos voltando pra casa a noite e temos que soltar nossas mãos por medo de que um louco apareça e nos faça mau.

    Israela Amaral

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