"Amem sem cor, raça ou gênero."

Cena de sexo de sete minutos entre as protagonistas alimenta críticas ferrenhas e defesas apaixonadas do filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes


Lea Seydoux e Adele Exarchopoulos no 66 Festival Anual de Cinema de Cannes 
(pascal Le Segretain/Getty Images)
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em maio, Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d'Adèle), do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche, chegou nesta sexta (6) aos cinemas do país com uma história paralela que tem tantas - ou mais - camadas do que a que se desenvolve na tela. Das suas quase três horas de duração, chamam a atenção especialmente os sete minutos de sexo entre as protagonistas Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma colegial de família modesta que quer ser professora primária, e Emma (Léa Seydoux), estudante de Belas Artes de origem burguesa – está nos cabelos dela o azul do título. “Acho que aqui no Brasil as pessoas vão receber bem o filme, já que os brasileiros me parecem apaixonados, intensos e livres”, arrisca a estreante Adéle, que não só empresta o nome, mas entrega-se de maneira comovente à personagem, em entrevista ao site de VEJA.
Alçada ao posto de musa francesa aos 19 anos por ninguém menos que Steven Spielberg, presidente do júri em Cannes, ela vive um momento Brigitte Bardot – com direito a uma visita a Búzios e declarações apaixonadas de amor ao Brasil. O filme recebeu no país classificação indicativa de 18 anos, acima dos países europeus e até dos Estados Unidos, onde a recomendação foi feita para maiores de 17 anos (apesar de uma cidade americana, Boise em Idaho, ter simplesmente banido o filme de suas telas). A distribuidora Imovision havia pedido classificação para 14 anos, depois 16 anos, e recebeu um taxativo não do Ministério da Justiça. “O fato de o filme ter recebido classificações distintas por onde passou prova como a moral e a ideia do que é erótico ou pornográfico varia para cada um de nós”, observou o diretor, que, apesar de ter sido aplaudido de pé em Cannes e ter recebido críticas positivas dos jornais mais importantes do mundo, vem sendo obrigado a se defender de todo o tipo de injúria desde que o filme se tornou público.
Há quem diga que houve exagero na condução da tal cena de sexo, de uma entrega e crueza raramente vistas – “raramente” e não “jamais”, como alguns entusiastas têm propagado mundo afora. O próprio cinema francês já tratou de instigar nosso imaginário com sensualidade e até conteúdo mais explícito, mas há algo especial em Azul é a cor mais quente. E esse misto de curiosidade, incômodo e inevitável excitação só pode ter a ver com o trabalho das atrizes, mais uma certa dose de voyerismo de Kechiche ao registrar o encontro íntimo entre as duas personagens – segundo consta, foram dez dias de gravação, apenas para a cena de sete minutos, em que sobram closes reveladores, beijos ardentes e apertões. Ao fim dela, o espectador chega a ter a impressão de que viu mais do que foi mostrado, o que leva ao termo “pornografia”. Mas é claro que a cena e o filme estão longe disso. “Não tenho nada contra o cinema pornô, mas não vejo a cena como pornográfica. Talvez haja um desconhecimento de como é o sexo entre mulheres, o que deve tornar a sequência mais reveladora para alguns do que para outros”, observa o diretor.
Houve ainda quem questionasse – como um grupo de lésbicas ativistas francesas, que chegaram a organizar uma sessão especial para depois criticar o filme sem piedade – a credibilidade da sequência, dizendo que tudo não passa de uma encenação tipicamente heterossexual, o que é um disparate no ponto de vista de Adèle. “Você não precisa saber como duas mulheres fazem amor para encenar que está fazendo sexo com uma mulher. No fim das contas, é só sexo entre duas pessoas que se amam”, diz, admitindo que ela e Léa recorreram a vídeos na internet para aprender uma coisa ou outra sobre lesbianismo.
Alheio aos eventuais e misteriosos tecnicismos da intimidade entre mulheres, Kechiche tem feito questão de anotar que quis fazer um filme de amor desesperado e carnal, e jamais a de levantar uma bandeira GLBT. Talvez por, como disse em São Paulo um dia antes, querer “banalizar o amor gay”, o diretor não tenha elevado o tom do drama no momento em mostra a opção de Adèle por Emma – a cena em que os pais da adolescente descobrem que as duas não estudavam filosofia no quarto como dizia a filha. Mas é possível deduzir que não tenha sido algo simples e tranquilo, já que opção da personagem de morar com Emma acaba transformando-a numa pessoa solitária e dependente. É o primeiro amor, sem tirar nem pôr, numa ficção que dialoga o tempo todo e propositalmente com a realidade. Mais do que interpretar, a Adèle atriz encarna a Adèle personagem, com uma verdade que surpreende não só a nós, espectadores reais, mas também os espectadores fictícios das telas que Emma pinta da namorada – a entrega da Adèle personagem como musa das pinturas, curiosamente, causa o mesmo impacto e recebe o mesmo tipo de elogio da entrega da Adèle atriz para o filme.
A história é livremente inspirada na HQ Le bleu est une couleur chaude, de Julie Maroh (há uma edição brasileira, da Martins Fontes), que declarou não ter gostado nada da adaptação, e conta cerca de 10 anos da vida da personagem principal. Antes de conhecer Emma, avistada na rua e logo transformada em personagem principal de suas fantasias sexuais, Adèle, então com 15 anos, namora um garoto da escola, aquele tipo dos sonhos, bonito, apaixonado e gentil – Thomas, vivido pelo belo Jérémie Laheurte, namorado de Adèle na vida real. A garota descobre o amor com ele sem grande entusiasmo, o que se reflete numa conversa entre os dois sobre literatura, quando ele diz que tem dificuldade para ler livros com muitas páginas. Por isso, fica claro o fascínio intelectual que Emma acaba exercendo sobre Adèle quando as duas se conhecem, o que acaba complementado de maneira magistral pelo sexo quente que as personagens vão fazer. Há um abismo intelectual entre elas, por causa da idade e das diferenças de classes sociais, o que é instigante na fase de descoberta do relacionamento, mas que cobra seu preço quando o namoro cai na rotina – algo que, como se sabe, pode ser comum a todo tipo de relação. É quando, também e não por acaso, os cabelos de Emma deixam de ser azuis. Adèle seria mesmo lésbica ou tudo não passou de uma fase? “Para mim, esse não é o ponto do filme. Não penso sobre ela como lésbica ou não-lésbica, mas como uma garota que está fazendo uma passagem. E que se apaixona nesse caminho, desesperadamente. Aconteceu de Emma ser mulher, mas acho poderia acontecer se ela fosse um homem também”, pontua a atriz, que ultimamente tem repetido em entrevistas as mesmas impressões que Kechiche tem da obra, num claro esforço de tirar o flme do campo do cinema gay. Mas não foi sempre assim.
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Um comentário:

  1. Esse filme, assim como sua matriz foram um lixo. O velho clichê pobre de sempre, e as cenas de sexo nem foram tao boas assim, algo muito imparcial..m filme se nexo, adepto, nao a arte, mas a pornografia hetero e nudez lesbica.

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